Pra quê mudar, mudar
pra quê? (Mário persona, 2002-06-22)
No mercado norte-americano do século dezenove, fabricar velas era um bom
negócio. A demanda estava aquecida, mas tinha pavio curto. Logo Thomas
Edison daria à luz uma vela cujo pavio não apagava com o vento. Tão
revolucionária que tiraria da vela tradicional a sua fatia do mercado de
iluminação. Esta acabaria sem a fatia, mas com o bolo. Só que de
aniversário.
A indústria de velas viu seu lucro virar fumaça. Nem a ver navios ficou,
já que o vapor tinha aposentado aquela vela também. O próprio vapor já
começava a se desvanecer, levado pelo vento dos motores a óleo e
gasolina que passavam a mover navios e trens. Ou automóveis, com potência
calculada em cavalos-vapor, ambos defuntos na evolução tecnológica, e
pistões impulsionados por... velas! Parece confuso? Mudanças são assim.
Parodiando um autor desconhecido, o progresso caminha de velório em velório.
Negócios acostumados com um sucesso linear são presa fácil das mudanças.
Repousam sobre os resultados do aqui e agora, sem se importar com o ali e
depois. Não percebem que quando o Sol se apagar ainda teremos oito
minutos de praia, o tempo que a luz leva para viajar à Terra. Enquanto se
bronzeiam num mercado em ebulição, alguém está inventando a lâmpada
que selará sua extinção. Para apagar a velinha de seu último aniversário.
Lucro não é salvaguarda. De tanta prata, o vidro transparente da janela
que permitia enxergar o mercado acaba virando espelho. Aí Narciso se
esbalda com o reflexo de sua própria competência. Geralmente começa com
uma direção embasbacada e contamina a produção. Quem irá dizer ao
chefe que é preciso mudar? Todos preferem continuar fazendo pós-graduação
em bajulação.
Há quem pense que mudar é comprar. Por isso, quando as coisas vão mal,
compram, fundem e incorporam. Mesmo correndo o risco de uma obesidade mórbida,
o peso que tem seu preço. Que também costuma ser pesado. Números que
repentinamente duplicam, triplicam e quadruplicam podem impressionar
investidores desavisados, mas em alguns casos não passam da visita da saúde.
Os últimos estertores do moribundo.
Mudar também não é pular de estratégia em estratégia, sem paciência
para esperar o galho parar de balançar. Isso gera confusão na cabeça da
equipe, que vê cada nova direção como faz-de-conta. Desmotiva quem
produz e desmoraliza quem conduz. Mudar é preciso. Vivemos numa época
que não é só de qualidade contínua, mas de mudança contínua. Só que
mudar por mudar é demolir sem construir. A diferença entre mudar para o
fracasso ou sucesso fica por conta da criatividade.
De exemplos de mudança com criatividade o mercado está cheio. Empresas
que mudaram radicalmente, mas nem tanto quanto o treinador que prometeu
fazer seu time dar uma guinada de 360 graus, o que o colocaria no mesmo
lugar. Em 1906 a Minnesota Mining and Manufacturing começava a partir de
uma mineração falida, da qual só restavam resíduos de minério e pó.
Alguém resolveu grudar aquele pó em folhas de papel e vender como lixa.
Do pó renascia uma Fênix dos tempos modernos, transformando-se na
gigante 3M, que incorporou uma cultura de inovação constante.
Às vezes a solução pode vir de um incidente com prejuízo aparente,
como o causado por um operário da fábrica de velas que deixou sua máquina
ligada ao ir almoçar. A matéria prima para sabão, um novo produto para
compensar o apagão das velas, virou uma massa cheia de bolhas de ar. Se
ainda fosse para fabricar velas, teriam inventado a velinha de bolo que já
vem com sopro. Mas como era para sabão, decidiram não desperdiçar a
produção. Sucesso absoluto.
No século dezenove, quando o rio ainda era o tanque de lavar roupa e a
banheira de muita gente, o sabão -- que sabidamente é liso como tal --
podia ser considerado perdido se escapasse da mão. Sem querer, aquele
operário acabara de inventar o sabão que boiava, graças à massa
areada. O rio inteiro virou saboneteira. O "Ivory Soap" foi um
sucesso tão grande que desbancou a decadente vela da linha de produtos da
empresa fundada em 1837 por James Gamble e Harley Procter. A Procter and
Gamble aprendia a importância de mudar e inovar.
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Mario Persona é consultor, escritor e palestrante. Esta crônica faz
parte dos temas apresentados em suas palestras. Veja em www.mariopersona.com.br