» Opinião

É o atual sistema econômico mundial Sustentável do ponto de vista ambiental?
(Fábio Albergaria de Queiroz, 2003-08-18)

O fenômeno da globalização é um dos pontos centrais do debate acerca das novas tendências que se desenham para o cenário internacional deste novo século. Dentro das questões que caracterizam a globalização ou resultam dela, a temática ambiental é, indubitavelmente, um dos grandes temas deste início de século pois diz respeito aos limites da exploração da natureza pelo homem, uma questão que afeta a todos.

Uma das respostas referentes às preocupações sobre os crescentes impactos da atividade econômica humana sobre os recursos naturais veio em 1983, quando a ONU criou a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento com o intuito de propor meios de harmonizar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
Presidida por Gro Harlem Brundtland, então primeira-ministra da Noruega, a Comissão lançou em seu relatório intitulado Nosso Futuro Comum, o conceito de Desenvolvimento Sustentável como sendo “aquele que é capaz de suprir as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das gerações futuras. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro” (BRUNDTLAND, 1987).

O objetivo deste breve artigo consiste em analisar, à luz do que foi exposto nesta sucinta introdução, a possível (ou possíveis) resposta (ou respostas) à seguinte indagação: é o atual sistema econômico mundial sustentável do ponto de vista ambiental? Seria demasiada pretensão, em tão breve análise, apontar uma resposta definitiva para uma questão que é tema de acalorados debates. No entanto, procurar-se-á aqui discutir alguns dos principais argumentos defendidos por escolas e correntes do pensamento econômico sobre a questão levantada para que haja, ao fim desta análise, um posicionamento.

A primeira abordagem a ser verificada é aquela desenvolvida pela Economia Ambiental Neoclássica. Ela visualiza o sistema econômico inserido em um meio externo passivo, ou seja, que essencialmente aceita sem maior comoção diferentes níveis de degradação. Para este escola do pensamento econômico, “o meio ambiente é um espaço neutro sujeito à poluição em menor ou maior grau, com reações previsíveis e reversíveis”.(MUELLER, 1999).
Os neoclássicos ressaltam a condição paretiana de que seja assegurada, pelo menos a manutenção do bem-estar dos que hoje vivem nas economias de mercado avançadas. (MUELLER,1999; MOTA, 2001)
Os adeptos da chamada Economia da Sobrevivência, segunda abordagem a ser analisada, argumentam que “se forem mantidos os atuais padrões de expansão da economia global, a humanidade enfrentará, não só rápida depleção de recursos naturais vitais, como também extensa destruição de espécies e perigosa acumulação de dejetos sólidos no ecossistema” (MUELLER, 1999). 

A mais recente perspectiva da Economia da Sobrevivência dá maior ênfase à exaustão da capacidade de suporte do meio ambiente, uma vez que este recurso natural, tão essencial à manutenção da vida no planeta, está sendo levado ao limite pela atual expansão econômica. 
Como medida alternativa para mitigar os danos causados aos ecossistemas globais, Lester Brown propõe uma profunda reestruturação do atual sistema econômico. Brown sugere o desenvolvimento de uma Economia Ambiental Sustentável que se baseie, por exemplo, na utilização de energia renovável – como a energia eólica e a solar - e reciclagem e reutilização de materiais. Esta proposta de reformulação será a última, mas não menos importante, corrente de pensamento a ser analisada para que então possamos discorrer sobre as conclusões alcançadas.

Uma das coisas que ficam claras quando fazemos uma retrospectiva deste século é, nas palavras de Brown (2001), “que o destino da economia atual não apresenta mais nenhuma perspectiva de progresso. Essa economia se “sustenta” no desmatamento das florestas, extinção de espécies e poluição das águas, o que ocasiona efeitos maléficos como aumento da temperatura e desertificação do solo, o que ocasiona um ciclo de devastação”.

A não destruição do meio ambiente e o baixo custo dessas fontes de energia renováveis são os grandes atrativos deste novo modelo econômico fundamentado na idéia da sustentabilidade. A adaptação de tradicionais instrumentos econômicos, de forma a torná-los compatíveis com esta proposta, seria uma das maneiras de viabilizar a transição do atual sistema econômica para o sistema da economia sustentável. Por exemplo, reestruturar os sistemas de tributação, taxando a utilização de fontes de energia que prejudiquem o meio ambiente contribuiria para incentivar o uso de fontes de energia renováveis.
Dado tudo o que foi exposto, seguem-se agora algumas breves considerações finais. Vamos a elas:

A máxima econômica de que as necessidades e desejos humanos são ilimitados enquanto os recursos disponíveis são finitos, traz consigo a essência da constante busca da satisfação e do bem-estar que acaba resultando na degradação dos recursos naturais. 
Entre 1950 e 1999, por exemplo, a economia mundial se sextuplicou. A economia não teve estrutura para suportar esse crescimento. Está aí, portanto, uma das grandes razões, senão a maior delas, para explicar o porquê de tantos desmatamentos, da poluição e outros problemas ecológicos que afetam o mundo. (BROWN, 2001)

Chegar a um modelo econômico compatível com a retórica da sustentabilidade não é uma meta alcançável pela simples atuação das forças de mercado, mas sim por meio de um planejamento sinérgico que envolva a plena participação da sociedade e a cooperação entre os diversos atores envolvidos neste processo como as entidades governamentais e as ONGs.
A resposta à pergunta a que se propõe responder este ensaio é NÃO. O atual sistema econômico mundial, de uma maneira geral, AINDA não é sustentável do ponto de vista ambiental. No entanto, nada se pôs a perder. Muitos esforços tem sido empreendidos para que novos modelos econômicos sejam criados ou para que as antigas abordagens sejam reformuladas e revestidas por um viés sustentável. Os modelos, abordagens e pensamentos citados ao longo deste ensaio são uma parcela ínfima do que se tem feito e discutido nos meios acadêmicos e demais fóruns de debate. 
O que aqui podemos afirmar categoricamente é que, o caminho em busca de um sistema econômico sustentável é árduo, porém possível.

Referências Bibliográficas
BRUNDTLAND, Gro Halem. Nosso Futuro Comum. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1987.
BROWN, Lester. “Perdemos mais espécies neste século do que nos últimos 65 milhões de anos”, Salvador, 2001; entrevista publicada pelo Worldwatch/UMA – Universidade da Mata Atlântica. Disponível no site www. worldwatch.org.br
MOTA, José Aroudo. O Valor da Natureza: Economia e Política dos Recursos Naturais. Rio de Janeiro: Garamond, 2001.
MUELLER, Charles C. Economia, Entropia e Sustentabilidade: Abordagem e Visões do Futuro da Economia de Sobrevivência. In: Estudos Econômicos, Instituto de Pesquisas Econômicas, USP, São Paulo, v. 29, n.º 4, p. 513-550, out./dez., 1999.
NORGAARD, Richard B. O Crescimento da Economia Global de Trocas e a Perda de Biodiversidade. In: WILSON, E. Biodiversidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
QUEIROZ, Fábio Albergaria. Meio Ambiente e Comércio Internacional: Relação Sustentável ou Opostos Inconciliáveis? 2003. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Sustentável). Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), Universidade de Brasília, Brasília.

____________________
Fábio Albergaria de Queiroz, 25 anos
e-mail: fabioaq@hotmail.com 
Bacharel em Relações Internacionais – Universidade Católica de Brasília
Mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília - UnB
Outros artigos do autor
 


Enviar para amigo

Fazer comentário

Imprimir a página

Os textos aqui publicados são de responsabilidade de seus autores ou fontes e podem não expressar a opinião da EconomiaNet - www.economiabr.net