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» Opinião |
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Competição: Competindo na Década de Vinte
(Ricardo Raele, 2002-09-01)
A concepção popular de competição
Quando imaginamos de onde vem a noção comum de competição, nos remetemos imediatamente á biologia, no entanto, ao contrário do que se pensa, a primeira concepção do conceito de competição é oriundo da economia. Já no século XVIII, mais precisamente na Inglaterra, se dizia "A competição é a vida do comércio", portanto podemos identificar desde tempos remotos a filosofia motriz da sociedade industrial moderna, como relataram posteriormente Adam Smith e os fisiocratas.
A liberdade que o desenvolvimento do comércio deu aos homens criou uma sociedade mundial, mas muito mais do que isso, organizou o nosso modus vivendi, que é totalmente moldado pela divisão do trabalho. Esta divisão trouxe consigo um viés competitivo assustador. Os teóricos de Chicago, por razões históricas da própria evolução epistemológica da "Escola Sociológica de Chicago", foram grandes estudiosos da competitividade durante a década de vinte. Partirei de duas questões básicas por eles abordadas; Temos uma primeira questão que é inerente ao próprio conceito: a competição levada a seu extremo lógico, gera o monopólio, já que apenas uma organização sobreviveria.1 No entanto, ela pode ser moderada para servir interesses diversos, é importante que se tenha em mente, um equilíbrio sistêmico pode ser gerado. A segunda questão reside em que ao libertarmos os impulsos competitivos a sociedade sacrifica outros interesses que não estão vinculados ao setor econômico. É sobre esta linha de raciocínio que se constróem as doutrinas mais radicais, que procuram abolir completamente a competição, como o socialismo e o comunismo. Analisando os dois problemas colocados, perguntou-se: O que move internamente estes processos? Que tipo de lógica eles obedecem? É sobre isto que muito superficialmente segue a nossa abordagem.
Competição, um processo de interação
Por definição o único sistema em estado de competição absoluta se encontra em uma comunidade vegetal, justamente pelo fato de não haver cognição entre os competidores. Como os competidores não se reconhecem, eles competem sem que haja qualquer intenção moderadora. A competição se faz de forma absoluta, sem que outras forças a influenciem.
Estes processos são diferentes dos que ocorrem entre humanos, porque nós ao ganharmos consciência da competição e de seus efeitos, irremediavelmente, entramos em conflito e procuramos moderar a competitividade por razões diversas. A conseqüência do reconhecimento mútuo de diversos indivíduos em um sistema fechado, competindo entre si, é um estado de conflito, de choque de interesses, que visam moderar politicamente a competição. Para haver conflito é preciso que haja compartilhamento de significados, que por sua vez é a matéria fundamental da existência social.
Quando ouvimos a expressão "a empresa não tem coração" ou ainda "amigos amigos , negócios a parte", estamos apenas constatando que é da natureza econômica isolar o "motivo do lucro" e organizar a sociedade a partir das relações de trocas. É por esta razão que as empresas precisam ser regulamentadas (politicamente inclusive) a fim de servirem a propósitos que vão além da rentabilidade pela rentabilidade em si.
Competição e liberdade
Segundo a doutrina sociológica de Chicago, entende-se que a organização da sociedade é efeito da livre competição, portanto trata-se uma organização ecológica. Da mesma forma que existe uma ecologia vegetal e uma ecologia animal, existe uma ecologia humana.
Acreditando que a economia é a luta dos homens pela sobrevivência, a ecologia humana tem a competição como sua força motriz, e, a evolução da economia política, como configuradora da história social.2 É por isso que críticas pesadas á forma utilitarista com a qual o homem se apropria e controla economicamente o próprio homem, enxergando-o como um meio e não como um fim, têm sido relevantes. A crítica marxista sobre a ética capitalista é construída sobre este aspecto.
No entanto, para haver uma sociedade, é preciso que a atitude independente dos indivíduos esteja orientada para o interesse do grupo como um todo, e para isso ela tem que ser controlada. É da complexidade desta questão que o problema do controle social se torna um dos problemas centrais da sociologia.
Competição e controle
"O conflito, a assimilação e a acomodação, enquanto distintos da competição, são todos intimamente relacionados ao controle. A competição é o processo através do qual a organização distributiva e ecológica da sociedade é criada. A competição determina a distribuição da população territorial e vocacionalmente. A divisão do trabalho e toda a vasta interdependência econômica entre os indivíduos, característica da vida moderna, são um produto da competição. Por outro lado, a ordem moral e política, que se superpõe a esta organização competitiva, é um produto do conflito, da acomodação e da assimilação." 3
A competição é algo tão natural aos organismos e as organizações que passa naturalmente desapercebida. Quando os atores sociais, para modificarem suas condições atuais, identificam que as dificuldades com as quais estão lutando advém de outros indivíduos na mesma condição, gera-se uma situação de conflito. Daí a importância do processo político para a sociedade gerenciar suas crises. Partidos, parlamentos, eleições são apenas recursos para se exercer controle sobre os competidores.
Acomodação e assimilação
Já observamos dois fatores de nossa análise, a competição e o conflito. A primeira depois de reconhecida pelos indivíduos é causadora da segunda. O conflito, por sua vez, cria as articulações políticas que moderarão a competição, e, estas novas regras, impositivamente, mudarão a ordem social. Neste instante inicia-se o processo de acomodação.
É através da acomodação que se fazem os ajustamentos internos gerados pelo conflito. Quando os ajustamentos são aceitos o conflito cessa e a ordem social é reorganizada, processo que se fixará no hábito e no costume.
"Nem o mundo físico, nem o mundo social são constituídos para satisfazer de uma vez todos os desejos do homem natural. Os direitos de propriedade, interesses estabelecidos de toda a sorte, a organização da família, escravidão, casta e classe, a organização social por inteiro, de fato representam acomodações, o que quer dizer, limitações dos desejos naturais do indivíduo."4
Finalmente, a assimilação ocorre. Ela é o processo individual interno que o indivíduo tem que enfrentar como resposta ao posicionamento que a acomodação o colocou na ordem social. Assimilar e readaptar-se a novas condições é o que garantirá ao indivíduo sua sobrevivência.
Estas são apenas algumas reflexões básicas e introdutórias sobre as quais os cientistas de Chicago fizeram na década de vinte. Abordaremos outros aspectos em um próximo artigo. Por enquanto o importante é reconhecer a sucessão cíclica,
Competição > Conflito > Acomodação > Assimilação, que sofremos enquanto seres sociais. Conhecer estes processos na vida atual, identifica-los na prática, nos micro-cosmos empresariais e governamentais, é tarefa dos cientistas contemporâneos. As possibilidades de utilização prática destes conhecimentos são vastas. Basta saber se o poder econômico os utilizará para o bom funcionamento da sociedade ou para satisfazer suas necessidades individuais.
Notas
1.Vejam que o comunismo poderia ser visto como uma imposição rumo ao fim da competição pela formação de uma única "empresa" controlada pelo Estado.
2.Neste ponto de vista observamos a economia política como fator de desenvolvimento histórico, o que nos remeteria a um conceito próprio de materialismo histórico. Ainda que no bojo, o materialismo histórico marxista e as correntes ideológicas de Chicago sejam absolutamente diferentes, e até antagônicas, eis aí campo interessante para novas pesquisas comparativas.
3. Robert E. PARK & Ernest BURGESS - Introduction to the Science of Sociology - The University Press, Chicago, 1921. "Competição" - (CapVIII, pág. 508)
4.Robert E. PARK & Ernest BURGESS - Introduction to the Science of Sociology - The University Press, Chicago, 1921. "Competição" - (CapVIII, pág. 509
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