» Opinião

China, adeus minha concubina
(Fernanda Ramone, 2003-12-01)

O processo de inserção da China junto a OMC, bem como sua abertura econômica a partir de 1978, desponta uma série de conseqüências que aos poucos começam a ser percebidas e noticiadas.

Matéria publicada na revista Veja no mês de junho, elucida a proliferação de prédios e novas fábricas que alterou o cenário das metrópoles como Pequim e Xangai e afasta a cada dia os símbolos de outrora.

As bicicletas, meio de transporte mais utilizado tempos atrás, marca da China comunista, perdem terreno para os automóveis. Estes por sua vez, em decorrência das mudanças radicais por que passa o mercado chinês, como a suspensão de inúmeros impostos, foram responsáveis pelo aumento de 20% da frota em 2001.

Frente a essa globalização que ocorre em diversos níveis, verifica-se o surgimento de novos problemas que não podem ser administrados por Estados dentro de suas próprias fronteiras, tais como o controle do fluxo de capital, poluição, doenças, informação e imigração, fazendo-os parecer fracos e ineficientes.

O conceito de soberania não é contrário à crítica, e é razoável imaginar que a referência à globalização ajude a miná-lo. A população chinesa, por sua vez, dada a memória histórica também parece concordar com os processos de abertura, haja vista a iminente candidatura de Hu Jintao.

Apesar de não anunciada oficialmente, as eleições de Hu simbolizam a renovação da ala mais liberal do Partido Comunista Chinês e a esperança àqueles que aguardam a reforma política.

A necessidade de uma abertura política é cada dia mais presente, assim como a reforma de um partido totalmente obsoleto que não corresponde à atual realidade do país, que tem apresentado espetacular crescimento econômico nestes últimos anos.

O desafio e a responsabilidade da inserção e manutenção dos índices até então apresentados são proporcionais à importância da presença da China - país mais povoado, com um milhão e trezentos mil habitantes - no sistema internacional.

Contudo, os ortodoxos da ala conservadora do PCCh (Partido Comunista Chinês) estão em alerta e dispostos a tomarem o poder mediante qualquer ameaça de desestabilização.

Tais medidas, apesar de necessárias, conduzem tardiamente às reformas neoliberais no âmbito interno chinês, em oposição à realidade do cenário internacional. Realidade (cujos atores já estão inseridos e atualmente se dirigem a uma nova etapa desse processo) refletida, por exemplo, no ato de enfrentar as atribuições e regulamentar mecanismos próprios a fim de proteger seus mercados exportadores.

Até que ponto o conservadorismo dos ortodoxos pode ser encarado apenas como elemento de entrave e atraso frente às transformações? Cabe aos dirigentes atuais não só a responsabilidade de implementar tais mudanças na China como inseri-la de maneira planejada que venha proporcionar benefícios a ambas as partes, ou ao menos as relações de cooperações se façam presentes. 

Do contrário, as conseqüências não serão diferentes das percebidas em momentos anteriores, como no Movimento das Cem Flores, que em 1957 revelou a insatisfação latente na sociedade chinesa contra o modelo econômico encarnado pelo I Plano Qüinqüenal. Os descontentamentos se baseavam na permanência dos fatores críticos e na incapacidade do plano em resolver os problemas da agricultura, que continuavam a exigir respostas adequadas à realidade chinesa. 

É fundamental que o emparelhamento entre a realidade atual e as perspectivas de conquista da inserção chinesa no sistema internacional introduzam novos desafios, como é o caso da fomentação de meios que possibilitem a produção de tecnologia de ponta, e não somente a limitação por copiar tecnologias produzidas em países já habilitados. 

Atentos à essa deficiência, recentemente (15/05/02) China e Brasil assinaram um Memorando de Entendimento entre as respectivas Academias de Ciências, para complementar uma parceria inovadora no campo da Ciência e Tecnologia.

Brasil e China encontram-se na lista das 40 nações do mundo que mais se destacam em pesquisas voltadas para o desenvolvimento tecnológico e possuem diversos estudos sobre temas afins, trabalhando inclusive de forma integrada no lançamento de satélites.

A incansável tentativa do país em se tornar uma superpotência, depois de décadas de instabilidade política e atraso econômico, parece estar agora, finalmente, dando adeus à concubina.

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Fernanda Ramone é graduanda em Relações Internacionais 
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