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As flores abortadas de
Mao
(Miguel do Rosário, 2003-10-13)
Porquê os intelectuais atacam Lula?
Começou antes do que eu imaginava. Mas não foi surpresa. O ataque
virulento dos intelectuais, alguns ironicamente conhecidos como de
esquerda só porque ajudaram a fundar, num remoto passado, algum partido
progressista, vem munido de armamento pesado. Autores marxistas às pencas
aparecem nas bibliografias, mas não o próprio Marx, nem Lenin, nem
Gramsci, com suas desconcertantes atitudes revolucionárias, engajadas,
desprendidas e construtivas. São autores novos, marxistas acadêmicos,
modernos, sutis, com visão histórica do tamanho de um buraco de
fechadura, sarcásticos e medíocres, que olham o mundo com desprezo e
pessimismo, interpretam a conjuntura atual e a política mundial com o
enfado de sorumbáticos críticos de arte.
Armados com este marxismo pós-moderno e
inconformados com a falta de poder, os intelectuais da velha guarda
protestam contra um governo de esquerda que lhes frustrou o sonho de se
divertir com a economia nacional como se fosse seu brinquedinho. Presos ao
noticiário de grandes jornais, onde são publicados diariamente seus
artigos, não procuram perder tempo pesquisando argumentações contrárias
às suas teorias. Bastam-lhes o apoio de um punhado de amigos, de preferência
da mesma classe social, do mesmo sindicato, da mesma turma de chop de
ipanema. E a glória nacional! A fama de serem publicados na Folha de São
Paulo, no Estadão, em prestigiadas revistas políticas! Perguntar para
uma pessoa do povo porque ela gosta de Lula, esse traidor? Nem pensar! Não
entendem o povo ignorante, que vota em qualquer demagogo!
Na verdade, nota-se que a luta de classes
no capitalismo moderno se dá somente entre a classe média e as classes
populares, visto que as elites flanam intocáveis acima destes problemas
menores. As classes populares oscilam entre a ignorância e o engajamento
revolucionário. A classe média oscila entre direita e esquerda, de
acordo com seus interesses. Em geral, os governos de direita pagam
melhores salários aos funcionários públicos, mas têm a tendência de
ir reduzindo cada vez mais o rol dos privilegiados, enquanto o governo de
esquerda, historicamente, tende a buscar ampliar os benefícios a um número
maior de pessoas, por exemplo, para os professores de ensino primário e
secundário, que ganham uma insignificância. Sem universidades públicas
populares, o povo não tem intelectuais que defendem seus interesses,
enquanto a classe média os tem aos montes, versados nos mais diversos
temas, filosofia, sociologia, história, artes, política, religião.
Sentindo ciúmes de um governo que só fala em fome, reforma agrária,
inclusão social e ganhando um inusitado apoio da direita, que antes lhes
marginalizava, estes intelectuais põem-se a trabalhar incansavelmente
para expor teorias que provam que o Brasil está inevitavelmente fadado ao
fracasso.
A direita, proprietária dos meios de comunicação de massa, está na
defensiva, e explora, com ar inocente, todas as contradições inevitáveis
de um governo inexperiente. Inexperiente mas fortalecido pela intensa
renovação ocorrida nos outros dois poderes da república, o judiciário
e o legislativo, notadamente entre os postos menos graduados. E ainda
assustado diante da responsabilidade de conduzir uma nação continental.
Mais do que isso: responsabilidade de dar um exemplo mundial de que a
esquerda pode ser absolutamente competente na gestão de um estado democrático
de grandes proporções. Mas isso não importa para estes intelectuais, em
geral obesos, idosos e amargurados, pelo menos no espírito. Eles querem
destilar sua inveja inesgotável por aqueles que ocupam lugares de comando
e que não lhes vêm tratando como gostariam. Isso acontece em todo lugar.
Quando o governo revolucionário de Mao-Tsé-Tung sentiu-se seguro e sólido
no poder, nos meados dos anos 60, o líder iniciou uma campanha de
incentivo à livre expressão, à arte e à poesia. Foi a campanha das
flores. Livres para criticar, porém, a maioria dos intelectuais chineses
começaram a publicar textos tão virulentos, amargos e ofensivos ao
governo revolucionário, que ameaçaram desestabilizar politicamente o
poder do partido comunista chinês. Mao pôde observar, então, com
extrema lucidez, que o país só teria apoio dos intelectuais quando estes
viessem do próprio seio do povo, com visão e experiência para entender
os caminhos e descaminhos da revolução. Não foi fácil para ele,
contudo, muito menos para o povo. Obrigado, pelas circunstâncias históricas,
a exercer um poder quase imperial, acabou por submeter a China a um
arriscado experimentalismo econômico, cujo resultado foram tropeços
catastróficos que custaram milhões de vidas. Tivesse a oportunidade de
uma transição mais tranquila, sem a inimizade constante das grandes potências
militares, e com o apoio dos intelectuais e cientistas, a China poderia
ter se tornado em pouco tempo uma poderosa república popular democrática.
A mesma história foi vivida pela União Soviética e também por Cuba.
Felizmente, os tempos são outros e os governos aprenderam a se utilizar
muito bem, muitas vezes até bem demais, dos instrumentos de mídia e
propaganda, sem haver mais necessidade de censura explícita ou repressão
aberta.
Aliás, estes intelectuais têm fortes reservas para com todos estes
exemplos de governo. Um governo de esquerda, para eles, é algo abstrato,
teórico, uma quimera acadêmica que lhes vale bolsas no exterior,
empregos na universidade e agora free-lances como pensadores de mídia. Eu
mesmo já tentei justificá-los. Ora, criticando, eles, os intelectuais,
ajudam o governo a se manter íntegro, ajudam o país a discutir
exaustivamente todas as opções políticas que se descortinam nos
horizontes do possível. Tudo bem, é o mesmo raciocínio do pai que bate
no filho e pensa: assim ele vai aprender e se tornar homem. Mas não
podemos ser complacentes em política enquanto crianças abandonadas
morrem de fome nas ruas. É preciso tomar posição e incentivar o
confronto, saudável, mas doloroso e mesmo perigoso, pois envolve poder,
entre os diferentes pontos-de-vista. Amigos deixarão de ser amigos.
Casais poderão se separar. Naturalmente, o amor poderá vencer também
estas batalhas. Mas as idéias serão esclarecidas pelo sol implacável da
história. Todas as discussões, confrontadas pelos acontecimentos, pelos
fatos sociais, tornar-se-ão passado, e a verdade emergirá da prática
política, da experiência dos povos na ingente tarefa de se auto-gerir.
Um outro país que vive uma situação com algumas semelhanças com o
Brasil, e que acabou por servir de instrutivo exemplo, é a Venezuela. A
linguagem incendiária de Hugo Chávez, que tanto agrada os ouvidos dos
setores esquerdos da classe média, dos estudantes e do povo sofrido,
acabou por colocar o país na beira de um golpe militar a la república de
bananas, por sorte abortado pela lealdade dos oficiais da baixa hierarquia
do exército. Chávez está promovendo profundas mudanças culturais e políticas
na Venezuela, tomou iniciativas ousadas, como uma reforma agrária sem
precedentes. Até que os intelectuais do país começaram a bombardeá-lo
com citações de Hegel e Shakespeare, enquanto o acusavam de comunista e
submisso aos interesses... de quem mesmo?
Graças a Deus não fomos infelicitados pela eleição de uma esquerda
irresponsável que acabaria por jogar o país novamente nas mãos de políticos
conservadores no pleito seguinte. Inflação e dólar dominados, juros
baixando gradualmente, instituições financeiras estatais, como BNDES,
Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, em excelente forma, o Brasil
está com o seu motor quase pronto para disputar a corrida global pelo
desenvolvimento. E não faltará petróleo! Com a chegada, crescente a
cada ano, de um enorme número de visitantes estrangeiros, o turismo
sinaliza com a geração de milhões de novos empregos no país, coisa que
tem que ser vista, não apenas pelo governo, mas pelos próprios empresários,
principalmente os pequenos e médios, como uma oportunidade para pagar dívidas
e fazer bons negócios.
O ataque dos acadêmicos ao governo Lula demonstra o quão pouco vale um
diploma. Não pela crítica, que é importante que exista, mas pela falta
de engajamento, senso de responsabilidade, e mesmo de solidariedade.
Queriam um governo preocupado com o social e agora acusam o social de
assistencialismo. Antes gritavam Fora FHC e FMI, agora gritam Fora ALCA,
Lula e FMI, enquanto esperam, impacientemente, pelo dinheiro da previdência
social. E assim passam a vida, escrevendo monografias que ninguém lê,
dando entrevistas e publicando artigos agourentos. E nada como umas boas férias
em Roma!
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