» Opinião

Exclusão Digital, uma nova forma de analfabetismo em um novo milênio
(Mário Oswaldo Gomes da Silva, 2002-08-19)

A inclusão digital é propagada aos quarto cantos do país, como um belo discurso, todos procuram falar que a tecnologia da informação é o passaporte para um mundo melhor, que não poderemos viver no novo milênio sem o domínio desta tecnologia pois a mesma é fundamental para o ingresso em uma comunidade globalizada na era do conhecimento. Entretanto, à distância entre o que se fala e a realidade não é tão bela assim. Desde o ano passado, são arrecadados recursos vultuosos junto às operadoras de telecomunicações para a composição do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust). Este fundo, que hoje conta com quase R$ 2 bilhões, iria subsidiar, dentre outros programas, o programa de implementação física de ambientes computacionais com acesso a Internet nas escolas públicas. Entretanto, 13 mil escolas públicas de ensino médio e profissionalizante que seriam beneficiadas ainda aguardam os equipamentos, sem que haja explicação sobre o que ainda falta para levar a tecnologia para quem está excluído.

Até quando o analfabetismo digital será tratado como um problema secundário e nossas crianças viverão sem o conhecimento necessário à vida do cidadão comum? Até quando nossos mecanismos compensatórios, criados para suprir esta carência, serão inibidos? Será que neste ano de eleições os estudantes terão a oportunidade de conhecer o que cada candidato pensa sobre o tema, ou os interesses partidários estarão acima desta prioridade?

É difícil aceitar uma situação como esta: há dinheiro, há espaço nas escolas, há demanda, mas não há vontade política em fazer acontecer, vontade esta tanto da situação quanto da oposição.

Quanto mais passa o tempo, mais difícil é estabelecer uma boa perspectiva para esses estudantes no mercado de trabalho, já que a exigência de conhecimento mínimo de informática em qualquer atividade é um pré-requisito cada vez mais presente no Brasil e no mundo: basta verificar os editais de concursos públicos, quer para a esfera federal como para a estadual ou a municipal, que exigem que o candidato comprove estes conhecimentos mediante prova específica. A cada ano perdido, o abismo entre o saber e a informação e a exclusão se torna maior. Em muitos casos, este caminho não tem volta, pois o estudante, ao mesmo tempo em que avança em sua grade curricular, também é lançado ao mercado sem o adequado conhecimento de informática, a esta altura sem qualquer chance de retornar aos bancos escolares, impingidos pelas necessidades da vida. O resultado é que milhares de alunos deixaram as escolas no ano passado e outros milhares deixarão este ano sem ter e noção do que é um simples teclado ou mesmo um mouse, sem ter a chance de concorrer a um emprego, sem ter a chance de buscar uma vida melhor..A estes, está sendo decretado um outro tipo de analfabetismo. A estes analfabetos, nossos políticos deverão dar explicações nos próximos anos, especialmente porque não se deixou de arrecadar os recursos, junto às empresas de telecomunicações neste período. 

Em recente palestra o Professor Cristovam Buarque, ex-reitor da Universidade de Brasília, estimulou a "segunda abolição", que nada mais é do que a efetiva solução do problema da educação no país permitindo aos "escravizados" a oportunidade de participar dos tempos modernos.
Na outra ponta, há aqueles que vivem dentro do ambiente da informática, sendo que o mercado de trabalho no setor de tecnologia da informação é cada vez mais seletivo. Hoje, quem tem condições financeiras e procura um centro de treinamento quer a perspectiva de emprego ao final do período de formação. Infelizmente, em boa parte, esta perspectiva se frustra em função da falta de projeção e análise da real necessidade de profissionais no mercado.

Nesta corrida pelo cliente, as empresas de treinamento devem moldar sua postura, quebrando o paradigma de oferecer apenas o treinamento que é comum na praça. É fundamental uma mudança radical - caso contrário, a proposta de formarem profissionais aptos fracassará em um curto espaço de tempo. O diferencial para quem quer sucesso é adotar o conceito de escola, implementando carreiras dinâmicas com base na demanda do mercado. Este é requisito fundamental para fazer com que a clientela dos centros de treinamento seja atendida dentro das suas perspectivas. Hoje, o setor de Tecnologia da Informação demanda por profissionais especializados e dinâmicos. Os centros de treinamento, na sua maioria, ainda adotam a política de formar profissionais segundo critérios pontuais, sem visão de conjunto e sem o mínimo de orientação de postura profissional. Este tipo de formação já não atende às expectativas, pois temos um mundo em constante avanço que não permite falta de iniciativa ou de informações. É muito importante estabelecer um estreito relacionamento com o mercado empregador buscando analisar suas demandas e necessidades. 

Na educação regular, por exemplo, os professores reconhecem que a Tecnologia da Informação é uma ferramenta importante no desenvolvimento educacional de seus alunos; o problema é que nem sempre esta ferramenta é explorada no seu conceito mais básico, que é o de capturar e disseminar informações. Isto significa que os centros de treinamento têm que se adequar a estas características, moldando sua política à necessidade que o mercado lhe demanda. Assim como a Tecnologia da Informação avança a cada dia, é importante que os formadores de mão-de-obra para este setor, sejam da área pública ou privada, acompanhem cada passo desta evolução.

É crucial inovar na formação de profissionais desta área, pois além de ser uma responsabilidade social, significa também reduzir a exclusão digital.


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Prof. Mário Oswaldo Gomes da Silva
(marreco@efatec.com.br), Professor da Universidade Católica de Brasília, Faculdade Euro-Americana e Diretor da EFATEC/Grupo TBA
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