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 Trabalho > Opinião

A síndrome do desemprego

por Ariosto Sparemberger

A questão do desemprego não é um fenômeno novo na vida do homem. No período da Revolução Industrial, os trabalhadores viam a invenção da máquina como uma inimiga, na medida em que esta substituía o seu trabalho artesanal. Em algumas situações os próprios trabalhadores chegaram a destruí-la. Em 1903 Frederick W. Taylor, o fundador da Administração Científica, através da aplicação do estudo dos tempos e movimentos visando a racionalização e eficiência no trabalho, foi acusado de provocar desemprego.

Portanto, o trabalhador vem sofrendo com a perda do seu emprego há muito tempo e isso tem afetado o ser humano, criando uma situação desagradável, podendo se transformar numa calamidade.

O ato de ser demitido causa um dor tão intensa, que segundo pesquisa realizada por Thomas Holmes e Richard Rahe, essa dor só é superada, em primeiro lugar, pela perda de um filho, em segundo, pela perda do marido ou da mulher ou dos pais.

Esta situação que o trabalhador passa a viver após o anúncio da demissão, constituí-se em um sentimento capaz de provocar reações inesperadas, trazendo reflexos negativos dos mais diversos e conseqüências tanto de natureza emocional, comportamental, familiar, econômica e social. Porém, o efeito da perda de emprego para o indivíduo, poderá gerar conseqüências, as quais podem ser atenuadas ou agravadas, dependendo principalmente do significado e importância que a pessoa atribuía ao seu emprego e do grau de relação que mantinha com a organização.

Neste momento a casa é sem dúvida o lugar mais seguro, encontrando na família forças suficientes para superar o impacto. Procurando entender que o seu emprego é apenas uma parte da sua vida, da sua história.

Porém a sensação de que o mundo desabou em cima de você e de que tudo está terminado é comum neste momento. Alguns depoimentos citados na obra de CALDAS (1999), ilustram esta situação. "De repente, teu mundo inteiro vira de cabeça para baixo. É como a morte. O que morre é aquilo que tomava conta de você". O trabalhador demitido chega a comparar a perda do emprego, com a morte, tal é o sentimento e a dor da separação física e psicológica com a empresa.

Outro depoimento CALDAS (1999), ajuda a entender o significado da perda do emprego. "Nas primeiras semanas após eu ter sido demitido, eu me senti como se tivesse me partido em pedaços... Era como se vir pro trabalho, ser um executivo (aqui), fosse o que me manteve coeso... Eu fiquei tão despedaçado, que não conseguia me juntar nem sequer para sair pela porta..."

A vida do trabalhador e da sua família é estruturada de tal forma que o trabalho faz parte do dia-a-dia, da rotina, passando a ser incorporado nesta, sendo desencadeadas uma série de atividades a partir desta estrutura. E no momento da demissão toda esta estrutura é abalada, começando a surgir os mais variados tipos de problemas. Principalmente porque a questão financeira precisa receber um outro tratamento. Há a necessidade de um replanejamento nas finanças. As primeiras 72 horas são terríveis, constatadas nos depoimentos citados. Pois a auto-estima está muito abalada. Você perda a identidade, o ponto de referência, que era o seu trabalho a empresa onde você passava a maior parte de seu tempo. E aquela pergunta, ao ser apresentado para alguém: onde você trabalha? E de um momento para outro esta situação foi terrivelmente alterada.

A atenção aos filhos pequenos é muito importante, eles vão precisar de muito carinho. Geralmente as crianças vivem num mundo de fantasia onde tudo parece muito fácil, principalmente a compra de brinquedos, balas e chocolates. Portanto um diálogo aberto informando o que está acontecendo pode ser um bom caminho.

As relações sociais também são abaladas, pois se perdeu os colegas de trabalho, idéia do grupo, as relações de amizade fora da empresa, que em grande parte proporcionavam situações de lazer e alegria.

Portanto, todas estas questões precisam ser analisadas e repensadas pelo ser humano. Até porque o desemprego existe e tendências concretas dão conta de que ele continuará afetando a vida das pessoas, das famílias e da sociedade. A dor do fantasma, com certeza continuará ainda afetando a cabeça das pessoas.

Cabe neste momento, um repensar da vida e observar que poderão existir formas diferentes de ver e de tratar este problema. Como também de repensar nossas relações com as organizações e com o nosso emprego, tratando nossa vida profissional de forma diferente, quem sabe, não atribuindo tanta dose de afinco na relação com a empresa. Desenvolver uma vida mais autônoma atribuindo valores e importância para outras questões tão importante quanto o emprego.

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Ariosto Sparemberger (ariosto@viacom.com.br) é Mestre em Administração (UFSC) e professor da ULBRA – Campus de Carazinho e URI – Campus de São Luiz Gonzaga, no Curso de Administração.

 

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