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2001: uma odisséia brasileira Parece ironia, mas desde o final do Governo Juscelino o Brasil não viveu nenhum ano de estabilidade. No início, os problemas aparentes estavam centrados em crises políticas e inflacionárias. Pois bem, na década de 80 reconquistamos a democracia e nos anos 90 a estabilidade de preços. Porém, ao contrário do que muitos pensavam, estes dois elementos não resultaram em prosperidade nacional. A partir de 1995, outros aspectos começaram a mostrar sua importância na equação econômica. Câmbio, balança de pagamentos, taxas de juros, competitividade industrial e problemas mundiais passaram a ganhar espaço nas notícias e nas conversas de mesa de bar. Este ano, que está em contagem regressiva para o seu término, foi mais um daqueles onde fatos inimagináveis alguns meses antes dominaram o palco dos acontecimentos, frustrando as expectativas de que finalmente o Brasil iria acertar o passo rumo a uma prosperidade sustentada. O agravamento da crise argentina (que nos últimos dias descambou para uma convulsão social); a desaceleração da economia dos Estados Unidos, reforçada pelo ataque terrorista do último dia 11 de setembro; e o racionamento energético, repercutiram gravemente em variáveis macroeconômicas, com destaque para: a acelerada desvalorização do Real frente ao Dólar; a manutenção de juros elevados; o comprometimento das contas nacionais; e o desaquecimento da atividade econômica. Felizmente, parece que a maior parte
destes problemas estão em vias de serem solucionados: os consumidores
norte-americanos parecem voltar lentamente a reaquecer os seus gastos; o
desmantelamento dos grupos terroristas está sendo, aparentemente,
bem-sucedido; os investidores externos estão (finalmente) descobrindo que
a capital política do Brasil é Brasília e a econômica é São Paulo e
não Buenos Aires; e as surpreendentes chuvas da primavera tiraram as
represas de geração energética de um nível criticamente baixo. Com isto, os fatores especulativos de
majoração do Dólar perderam força e a cotação da moeda
norte-americana está voltando, gradativamente, a um ponto de equilíbrio
realista (abaixo de R$ 2,20, na opinião deste economista). De acordo com
este quadro, as festas de final de ano serão mais animadas do que o
imaginado há poucos meses. Porém, já está mais do que na hora de
a sociedade brasileira começar a aprender que se os azares e fatos
inesperados influenciam tão fortemente a nossa realidade, os problemas não
estão nos azares e fatos, mas sim na maneira como construímos a
realidade. A famosa carta de Pero Vaz de Caminha ao
Rei de Portugal - identificando as terras brasileiras como de fartura
inesgotável - parece que foi absorvida pelo inconsciente nacional,
fazendo com que a população utilize os recursos à disposição de forma
pródiga e normalmente descriteriosa. Isto tanto vale para os sucessivos
governantes que emitiam moeda levianamente e criavam inflação, como para
demais componentes da sociedade (empresas e pessoas físicas) que costumam
confundir, erroneamente, o uso racional de recursos naturais e financeiros
com cerceamento de liberdade. Nesta ambientação, coloca-se a questão do
racionamento energético como o aspecto mais importante no contexto econômico
de 2001. O ponto essencial não é o óbvio fato econômico de que tal
restrição contribuiu pesadamente para a desaceleração da produção
industrial do País, ou que a matriz energética brasileira deva ser
repensada de forma a minimizar o fator risco climático na geração de
eletricidade. O fundamental é que toda a sociedade
brasileira – pela primeira vez na história recente – passou a lidar
com uma restrição formal e surpreendentemente teve êxito no
cumprimento de suas metas, especialmente nos primeiros meses de
racionamento. E ainda mais: ao contrário do que foi profetizado pelos
apocalípticos de plantão, o impacto das restrições ao consumo de
energia no setor manufatureiro não determinou uma queda linear da produção.
De acordo com os dados do IBGE, entre maio e setembro (período mais crítico
do racionamento) a indústria paulista registrou crescimento frente ao
mesmo período do ano anterior em todos os meses em questão, gerando um
avanço acumulado de 1,80%. Por outro lado, neste mesmo intervalo de
tempo, o Rio Grande do Sul – que foi excluído do racionamento -
apurou sucessivas quedas em sua produção fabril, acumulando uma perda de
2,49% no período. Esta evidência mostra que as dificuldades no uso da eletricidade foram contornadas em várias situações e este problema, apesar ter suas raízes em equívocos institucionais, está sendo uma bela fonte de aprendizado para todo o Brasil. De fato, isto que podemos chamar de
“conservação seletiva de energia”, é projetável para todos os
aspectos da vida econômica nacional, que transcendem os recursos
naturais. Sabe-se que os países com sucesso no desenvolvimento econômico
têm, junto de si, uma população com tradição poupadora (mesmo os
pobres), que nada mais é do que a utilização inteligente da renda
obtida com a energia do trabalho. Se o Brasil pôde poupar eletricidade,
seguramente tem condições economizar em diversos aspectos menos
importantes no campo público e privado, transformando estes recursos em
investimentos que resultarão em benefícios reais no futuro. Talvez, esta
seja a lição mais importante de 2001. A propósito: a luz do banheiro não ficou ligada?
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