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2001: uma odisséia brasileira
(Eduardo Starosta, 2002-01-01)

Parece ironia, mas desde o final do Governo Juscelino o Brasil não viveu nenhum ano de estabilidade. No início, os problemas aparentes estavam centrados em crises políticas e inflacionárias. Pois bem, na década de 80 reconquistamos a democracia e nos anos 90 a estabilidade de preços. Porém, ao contrário do que muitos pensavam, estes dois elementos não resultaram em prosperidade nacional. A partir de 1995, outros aspectos começaram a mostrar sua importância na equação econômica. Câmbio, balança de pagamentos, taxas de juros, competitividade industrial e problemas mundiais passaram a ganhar espaço nas notícias e nas conversas de mesa de bar.                       

Este ano, que está em contagem regressiva para o seu término, foi mais um daqueles onde fatos inimagináveis alguns meses antes dominaram o palco dos acontecimentos, frustrando as expectativas de que finalmente o Brasil iria acertar o passo rumo a uma prosperidade sustentada. O agravamento da crise argentina (que nos últimos dias descambou para uma convulsão social); a desaceleração da economia dos Estados Unidos, reforçada pelo ataque terrorista do último dia 11 de setembro; e o racionamento energético, repercutiram gravemente em variáveis macroeconômicas, com destaque para: a acelerada desvalorização do Real frente ao Dólar; a manutenção de juros elevados; o comprometimento das contas nacionais; e o desaquecimento da atividade econômica.                       

Felizmente, parece que a maior parte destes problemas estão em vias de serem solucionados: os consumidores norte-americanos parecem voltar lentamente a reaquecer os seus gastos; o desmantelamento dos grupos terroristas está sendo, aparentemente, bem-sucedido; os investidores externos estão (finalmente) descobrindo que a capital política do Brasil é Brasília e a econômica é São Paulo e não Buenos Aires; e as surpreendentes chuvas da primavera tiraram as represas de geração energética de um nível criticamente baixo. 

Com isto, os fatores especulativos de majoração do Dólar perderam força e a cotação da moeda norte-americana está voltando, gradativamente, a um ponto de equilíbrio realista (abaixo de R$ 2,20, na opinião deste economista). De acordo com este quadro, as festas de final de ano serão  mais animadas do que o imaginado há poucos meses. 

Porém, já está mais do que na hora de a sociedade brasileira começar a aprender que se os azares e fatos inesperados influenciam tão fortemente a nossa realidade, os problemas não estão nos azares e fatos, mas sim na maneira como construímos a realidade. 

A famosa carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal - identificando as terras brasileiras como de fartura inesgotável - parece que foi absorvida pelo inconsciente nacional, fazendo com que a população utilize os recursos à disposição de forma pródiga e normalmente descriteriosa. Isto tanto vale para os sucessivos governantes que emitiam moeda levianamente e criavam inflação, como para  demais componentes da sociedade (empresas e pessoas físicas) que costumam confundir, erroneamente, o uso racional de recursos naturais e financeiros com cerceamento de liberdade. Nesta ambientação, coloca-se a questão do racionamento energético como o aspecto mais importante no contexto econômico de 2001. O ponto essencial não é o óbvio fato econômico de que tal restrição contribuiu pesadamente para a desaceleração da produção industrial do País, ou que a matriz energética brasileira deva ser repensada de forma a minimizar o fator risco climático na geração de eletricidade.

O fundamental é que toda a sociedade brasileira – pela primeira vez na história recente – passou a lidar com uma restrição formal  e surpreendentemente teve êxito no cumprimento de suas metas, especialmente nos primeiros meses de racionamento. E ainda mais: ao contrário do que foi profetizado pelos apocalípticos de plantão, o impacto das restrições ao consumo de energia no setor manufatureiro não determinou uma queda linear da produção. De acordo com os dados do IBGE, entre maio e setembro (período mais crítico do racionamento) a indústria paulista registrou crescimento frente ao mesmo período do ano anterior em todos os meses em questão, gerando um avanço acumulado de 1,80%. Por outro lado, neste mesmo intervalo de tempo, o Rio Grande do Sul – que foi excluído do racionamento -  apurou sucessivas quedas em sua produção fabril, acumulando uma perda de 2,49% no período.

Esta evidência mostra que as dificuldades no uso da eletricidade foram contornadas em várias situações e este problema, apesar ter suas raízes em equívocos institucionais, está sendo uma bela fonte de aprendizado para todo o Brasil.

De fato, isto que podemos chamar de “conservação seletiva de energia”, é projetável para todos os aspectos da vida econômica nacional, que transcendem os recursos naturais. Sabe-se que os países com sucesso no desenvolvimento econômico têm, junto de si, uma população com tradição poupadora (mesmo os pobres), que nada mais é do que a utilização inteligente da renda obtida com a energia do trabalho. 

Se o Brasil pôde poupar eletricidade, seguramente tem condições economizar em diversos aspectos menos importantes no campo público e privado, transformando estes recursos em investimentos que resultarão em benefícios reais no futuro. Talvez, esta seja a lição mais importante de 2001.

A propósito: a luz do banheiro não ficou ligada?

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Eduardo Starosta - eduardostarosta@uol.com.br
Diretor-presidente da ESTPLAN Assessoria e Planejamento Econômico LTDA

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