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Economia política da Alca
(Eduardo Starosta, 2001-09-02)

Quando George Marshall implantou, em 1948, o famoso plano de ajuda à Europa Ocidental, que leva o seu nome, o Governo dos Estados Unidos mostrou ao mundo que aprendeu algumas lições importantes. Em primeiro lugar, o estilo “Tratado de Versalhes”, onde o derrotado (no caso a Alemanha, na primeira guerra mundial) era condenado a pagar pesados tributos e humilhações, apenas aguçava os sentimentos revanchistas. Como contraponto, tínhamos a antiga política do império romano que, gradativamente elevava os seus conquistados a um status cívico melhor, até que estes obtivessem, definitivamente, a cidadania imperial.

Resguardadas as proporções, o Plano Marshall optou filosoficamente por recuperar seus aliados e desenvolver os ex-inimigos, obtendo destes uma irretocável fidelidade. Esta política foi, na época, importante por dois aspectos: proteger o ocidente da então ameaça soviética; e desenvolver fortes parceiros comerciais, de forma a ampliar o mercado consumidor norte-americano. Tal estratégia foi o grande fator alavancador da economia mundial na maior parte da segunda metade do século XX.

Passamos para o terceiro milênio, porém, com um quadro sensivelmente diverso daquele descrito: a União Soviética se curvou ante seu próprio peso; e as economias aliadas (especialmente União Européia e Japão) chegaram em um momento no qual seu ritmo de crescimento não mais lidera o trem do desenvolvimento mundial. Lembra-se que este papel foi assumido nas duas últimas décadas pelos chamados “Tigres Asiáticos” que gastaram rapidamente o seu oxigênio de crescimento acelerado.

Hoje, a bola da vez do desenvolvimento está com a China, que vem registrando elevadas taxas de incremento da economia desde meados dos anos 80, mesmo descontando-se o fato de as estatísticas mandarins não serem nada confiáveis. Mas o fato é que, na medida em que os chineses recebiam grandes investimentos mundiais, seus cientistas tratavam de dominar as novas tecnologias, dando sustentação a uma postura cada vez mais agressiva - sob o ponto de vista comercial - e hostil - em termos militares - deste País, em relação ao ocidente, especialmente no que se refere aos Estado Unidos. Há claros indícios de que uma superpotência está ressurgindo (de seus 4000 anos de história, pelo menos em 3000 anos a China foi um país dominador, de destaque no mundo então conhecido) e tentando delimitar uma área de influência maior do que as suas fronteiras. Falar em nova guerra fria ainda é prematuro, mas tal hipótese não deve ser descartada. Fatos como o recente episódio do avião espião; a retomada do projeto “guerra nas estrelas” pelo governo Bush; e o rearmamento de Taiwan apontam neste sentido.

Frente a este contexto, o modelo econômico norte-americano necessita de novas parcerias. Dentro desta linha de conduta, uma população de quase meio bilhão de habitantes, que se distribui ao sul do México é um número nada desprezível. Ademais, o principal e declarado inimigo do governo dos Estados Unidos – o narcotráfico organizado – tem seus quartéis generais na Colômbia, Equador, Peru e, mais recentemente, no Brasil, sendo este um oponente que só será derrotado através da construção de alternativas atraentes e menos arriscadas de renda para as populações envolvidas com a produção e distribuição de entorpecentes na ponta do consumo.

Juntando, então, a necessidade de desenvolver novos mercados e eliminar ameaças a sua sociedade, o Governo George Bush evidentemente se mostra ansioso pela consolidação da ALCA em moldes bem mais íntimos do que o Plano Marshall.

Sob o ponto de vista brasileiro, esta proposta deve ser vista com alguns percalços que devem ser muito bem ponderados:

– em primeiro lugar deverá ser colocado na balança de negociações a questão relativa ao subsídio agrícola dos EUA, que evidentemente inibe artificialmente a competitividade dos produtores de nosso País;
– a concretização da ALCA – apesar de ter um notório potencial de alavancagem econômica – tiraria tradicionais graus de liberdade da economia brasileira frente a outros blocos econômicos, como a Comunidade Européia e a própria China. Enfim, teríamos – em tese - um comprometimento diplomático que ameaçaria a nossa tradicional, oportuna e lucrativa posição de País não alinhado;
– a cada vez mais evidente posição brasileira de liderança econômica e política da América do Sul (o grande irmão do sul) deve ser muito bem negociada na determinação do futuro ponto de equilíbrio das relação Brasil – Estados Unidos no âmbito da ALCA.

Enfim, conclui-se que o atual movimento de integração das Américas, partindo do Norte, é amparada por claros exemplos de sucesso onde todos os países envolvidos saíram vitoriosos pela própria dinâmica que Davi Ricardo denominou – séculos atrás – de construção de comércio. No entanto, jamais deve ser descartada a necessidade de se apontar o lápis e começar a redigir os protocolos de integração de acordo com a ótica brasileira e negociar… negociar muito

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Eduardo Starosta - eduardostarosta@uol.com.br
Diretor-presidente da ESTPLAN Assessoria e Planejamento Econômico LTDA

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