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Mesmo sob fogo cerrado, ainda existem os curingas
(Eduardo Starosta, 2001-10-06)

Seguramente, os acontecimentos ocorridos no último dia 11 em Nova Iorque vão se perpetuar nos livros de história dos Estados Unidos e mesmo da humanidade. No entanto, o calendário segue adiante e chega o momento em que, mesmo sob uma expectativa de conflito bélico, a vida deve retornar a um ritmo de maior normalidade possível.

Assim, se é possível que muitas coisas mudem no mundo a partir da queda do World Trade Center, também é verdade que a maior parte dos elementos relacionados ao nosso dia a dia continuarão funcionando sob a lógica tradicional anterior aos ataques terroristas.

Então, resgatando alguns aspectos da realidade econômica predominante na primeira semana de setembro, tínhamos, no campo internacional, um quase consenso a respeito da desaceleração da economia norte-americana, que geraria repercussões negativas nos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. O endividamento da classe média do referido País - principalmente em função dos prejuízos dos investimentos nas Bolsas de Valores (especialmente no que se refere as ações congregadas no NASDAQ) - vinha provocando um arrefecimento do consumo, com vistas ao saneamento financeiro das famílias 

Como em um jogo de baralho, em que o curinga elimina a lógica linear da disputa, a economia está recheada de curingas em locais em que menos se imagina, como poderá ser verificado no relato que se segue.

Até o dia 10 último eu estava hospedado na casa de um amigo que reside no Estado de Michigan (EUA), em uma pequena cidade nos arredores de Detroit. Na espera da confirmação de um e-mail, atendi ao telefone na expectativa de ouvir uma voz feminina do Rio Grande do Sul. Ao invés disto, falava um norte-americano, que representava conhecida empresa de cartões de crédito, oferecendo o seguinte negócio: transferência das dívidas de todos as instituições concorrentes, em troca de seis meses de carência da dívida acumulada, sem a incidência de quaisquer taxas de juros.

Sem dúvida, este era um excelente negócio para os endividados. Poucos minutos depois, conectado na internet, repentinamente abriu-se uma janela publicitária, que repetia a mesma oferta do telefonema antes referido. O cartão de crédito em questão era vinculado a um famoso provedor. Esta coincidência me deixou intrigado e resolvi pesquisar mais profundamente a questão.

Encontrei, então, o curinga do endividamento dos norte-americanos na competitividade das diversas empresas administradoras de cartões de crédito, que disputam seus clientes através do deságio na taxa de juros ao consumidor, permitindo que o mesmo possa reestruturar sua vida financeira. 

O custo normal da mencionada forma de financiamento de compras nos Estados Unidos, gira por volta de 20% ao ano. Com a carência anteriormente mencionada, tais encargos caem imediatamente para 9,5% no período de 12 meses, o que já é uma situação atrativa para o saneamento das pessoas físicas, que em um curto espaço de tempo voltariam a ter condições de contrair novas dívidas, alavancando a economia do País em questão. Me dei por satisfeito com a explicação encontrada, pensando que esta era uma rica informação a ser debatida no âmbito brasileiro.

Na noite do mesmo dia fui jantar em um excelente restaurante russo e reparei na existência de um outro curinga na questão em pauta. Casualmente observei uma senhora da mesa vizinha pagando a conta: ela abriu uma carteira e começou a procurar por um dentre mais de vinte cartões de crédito. A curiosidade me fez notar que os demais clientes adotavam o mesmo procedimento, o que considerei bastante intrigante. Um pouco constrangido com a minha ignorância a respeito da chamada "american way of life" perguntei ao amigo que me acompanhava no jantar o motivo daquela mania do povo local em colecionar cartões. A resposta foi clara e simples: no momento em que é possível transferir os débitos de uma para outra instituição de crédito e ainda obter benefícios por isto, os norte-americanos passam a renegociar sua dívida antes do vencimento da carência, simplesmente migrando o seu saldo devedor para outra operadora.

É evidente que este jogo financeiro encontra seus limites na disposição das empresas de cartão de crédito em evitar exageros, através da consulta de cadastro de clientes. Mas o fato é que o "curinga" do consumidor norte-americano fez com que o saneamento das contas pessoais se tornasse bem mais tranqüilo e a volta para o consumo poderá se concretizar em um prazo mais reduzido do que o imaginado inicialmente pelo clima recessivo que ronda os Estados Unidos e, conseqüentemente o mundo.

Voltei ao Brasil pensando neste assunto, e quando o avião sobrevoava o Mar do Caribe, o World Trade Center virava poeira em Nova Iorque. Ignorando o fato naquele momento, pensava em escrever sobre esta experiência que é uma interessante lição aos brasileiros na medida em que é evidentemente mais saudável e exeqüível fazer valer uma boa Lei anti-truste - que incentive a competitividade - do que ficar na velha história de tabelar juros em 12%.
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Eduardo Starosta - eduardostarosta@uol.com.br
Diretor-presidente da ESTPLAN Assessoria e Planejamento Econômico LTDA

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