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O Marketing Pessoal e a Filosofia Do "Eu S.A.". - Panacéias Num País Sem Empregos
(Alessandra Teixeira, 2002-10-15)

Num país onde o desemprego ainda é a maior preocupação de muitos, uma das mais recentes teorias importadas pelos marketeiros para vender livros, cursos, palestras e consultorias especializadas é a que se refere ao Marketing Pessoal e ao EU S.A. Ou seja, a pessoa tem que se posicionar no mercado da mesma forma que uma empresa e neste contexto, ser capaz de gerenciar seus pontos fortes e fracos e estar sempre atenta às oportunidades e ameaças que surgirem.

Desse modo, argumentam alguns gurus do Marketing Pessoal, o indivíduo não deve deixar escapar as chances de mostrar seus talentos e habilidades, sempre que houver uma oportunidade para se destacar perante os demais (que nessa ótica mercadológica são vistos como concorrentes, já que a pessoa se assemelha a uma empresa vendendo um produto e sendo autogerida - O EU SA.). A princípio parece algo útil e inofensivo, nada que possa comprometer a imagem de ninguém e, muito pelo contrário, só ajudar. Em uma sociedade repleta de incertezas onde o desemprego tem batido à porta de muitos, o Marketing Pessoal é vendido como uma panacéia capaz de fazer qualquer pessoa arrumar um bom emprego e se dar bem na carreira. Acontece que na prática, o Marketing Pessoal tem sido distorcido e levado ao extremismo por muitas pessoas ansiosas em se darem bem em suas carreiras. 

Em um mundo globalizado e obsessivamente preocupado com a concorrência, as pessoas tendem a disputar enormes fatias de mercado como se elas fossem mínimas e neste contexto, o que vale é esmagar impiedosamente o concorrente. Isto tem causado uma certa miopia no marketing a partir do momento em que as pessoas disputam cegamente entre si segmentos de mercado já saturados, enquanto outros territórios inexplorados estão a espera de pessoas corajosas e inovadoras capazes de criar as profissões do amanhã. Já sabemos que os empregos estão em extinção, ao mesmo tempo em que a oferta de trabalho tem aumentado. Hoje não se fala mais em empregabilidade e sim, em trabalhabilidade. Quem tem medo da concorrência em profissões que já estão desaparecendo é porque é no mínimo desatento e se é desatento é porque não tem competência. Na maioria das vezes deve realizar um trabalho monótono, padronizado e exaustivo que não lhe permite ter um tempo disponível para refletir e se ajustar à nova ordem. Competir é saber inovar. A competição saudável conduz à inovação a partir do momento em que as pessoas vão buscar alternativas de trabalho mais atraentes ao invés de ficarem tentando se vender ao mercado como se fossem um produto. A inovação é território dos que não têm e nem nunca tiveram medo dos concorrentes, simplesmente porque conseguem ser tão criativos a ponto de enxergarem tantas alternativas de trabalho que nem ao menos se preocupam com essa palavra tola : concorrente. 

Se você tem a sua maneira peculiar e incopiável de trabalhar e confia no que faz, não tem que prestar atenção no que o seu vizinho está fazendo. Se você tem a plena convicção de que o produto que está oferecendo ao mercado realmente está agregando algum valor ao PIB Social, então não tem com o que se preocupar. Se o seu produto tem o seu toque, o seu próprio conteúdo (e não, o dos outros), uma embalagem pessoal em conformidade com este conteúdo autêntico e finalmente, uma marca confiável, no sentido de que as pessoas possam crer que o que você diz corresponde ao real, então você está no caminho certo do Marketing Pessoal, que surge espontaneamente.

O grande problema é que assim como nas outras formas de Marketing, especialmente a voltada para produtos, onde a propaganda costuma exagerar e causar frustação no mercado - quando se percebe que é enganosa - no Marketing Pessoal isto é ainda mais grave. É grave porque muitas pessoas têm se autopromovido através de propaganda enganosa a exemplo do que ocorre frequentemente no Marketing Político, onde muitos vendem uma falsa imagem apenas para se elegerem. Algumas têm levado tão à sério a questão do Marketing Pessoal que se transformaram realmente num produto, num ente material. E nesse contexto egocêntrico, que abarca a filosofia marketeira do “Eu Sa.’”, revestiram-se de uma embalagem moderna para esconderem suas deficiências. (Como naquela embalagem de batatinhas que você compra achando que será capaz de saciar a sua fome e quando você abre o pacote encontra aquelas humildes batatinhas no fundo e percebe que o resto não passava de um vácuo.) Só que ao invés de esconderem deficiências, as pessoas “coisificadas” estão perdendo a originalidade, as características próprias que conferem vantagem comparativa a qualquer produto. Não são mais um ser humano, são as marcas de roupas que vestem ou os cargos que ocupam. Algumas banalizaram tão profundamente o Marketing Pessoal que passaram a ser os interlocutores de seus próprios méritos, numa espécie de Relações Públicas trabalhando em causa própria. E nessee contexto patético do homem-produto ficam se publicitando no mercado com mensagens nem um pouco modestas tipo : “Eu sou o PHD nisso/naquilo...”, “Eu fui promovido por causa disso/daquilo...”, “Eu sei fazer isso/sei fazer aquilo...” Enfim, pensam estar intimidando seus supostos concorrentes e despertando a atenção de seus potenciais empregadores quando se auto comercializam através de slogans do tipo : “ Eu sou o Número Um, a Mercedez Benz que fala, o IBM em forma de gente, o Rolex que nunca marca passo, a impressora Xerox com possui cores mais vivas....” Infelizmente nesta ânsia de se promoverem no mercado, através de receitinhas importadas sobre Marketing Pessoal e que foram deturpadas na prática, muitos acabam perdendo sua naturalidade e se transformando numa espécie de “Coisa SA”. - que na verdade é Limitada - e assim se tornam antipatizados entre amigos e colegas, por estarem sempre tentando vender algo, quando um simples sorriso exibido espontâneamente talvez fosse o suficiente.

É preciso saber dosar, portanto, até que ponto o Marketing Pessoal não ultrapassa os limites do aceitável e se torna mera propaganda enganosa - para a qual não existe PROCON que dê jeito, repleta de mensagens persuasivas e exageradas que nos bombardeiam e chateam os ouvidos e cujo porta-voz principal é sempre o próprio homem-produto.
Algumas dicas para o Marketing Pessoal espontâneo :

- Não finja ser o que não é, só para conseguir alguma coisa que lhe interessa

- Não se vista de uma forma exageradamente impecável, mas que possa se tornar tão desconfortável a ponto de prejudicar seu próprio desempenho no trabalho. Lembre-se de que o mais importante não é a sua embalagem, mas sim, o conteúdo de seu trabalho

- Não se cubra de elogios e nem fique se publicitando desnecessariamente. Deixe que os outros cuidem disso para você

- Não invente qualidades ou conhecimentos que você não possui, lembre-se de que um dia você terá que prová-los

- Guarde algumas cartas na mão para quando chegar o momento oportuno você colocá-las no jogo. Alguns de seus feitos mais importantes ou qualidades que ninguém imaginava que você tinha, quando reveladas na hora certa, surpreenderão as pessoas ao invés de decepcioná-las.

Quantos de vocês já não tiveram um colega exibido que decepcionou a todos, pois vivia ostentando um conhecimento ou qualidade que não tinha e na hora de colocar em prática foi aquele vexame, seguido de comentários do tipo :

“Mas ele não disse que tinha morado cinco anos em Londres, que aprendeu o inglês mais puro ? Como é que agora ele não é capaz de traduzir para a gente o que o gerente da nossa matriz em Oxford está dizendo ?“

“Mas aquele cara não era o tal do fera em finanças que tinha feito uma pós na FGV? Como é que ele não conseguiu nem calcular o custo do nosso projeto ?”

“No currículo dele não dizia que ele fez bico de Webdesigner, como é que ele não sabe nem ligar o micro ????”

Lembre-se: No Marketing Pessoal é preferível pecar por humildade do que por excessos !!!

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Alessandra Teixeira
, Pós-graduada em Marketing pela UFMG; Professora e Consultora nas áreas de Marketing e Turismo; Mestranda em Gestão Sustentável do Turismo e Hospitalidade
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